Entrevista a Fernando Alvim e Nelson Nunes: “Pararemos apenas quando a coisa deixar de nos dar pica”

Quais os limites do hum… Esqueçam, esqueçam. Não é nada disto. Depois de ter tentado esboçar em livro o “retrato completo do humor português”, Nelson Nunes juntou-se a Fernando Alvim e juntos criaram o podcast Com o Humor Não Se Brinca (CHNSB), um projecto por onde já passaram nomes como Ricardo Araújo Pereira, Bruno Nogueira e Carlos Coutinho Vilhena.

Este programa – que visa enaltecer as personalidades mais mediáticas da comédia nacional – chega na próxima sexta-feira (dia 25 de Maio) ao palco do Cinema São Jorge, para um espetáculo ao vivo.

Posto isto, e como quero que este blog seja marcadamente humorístico, decidi entrevistar os anfitrões do podcast, e perceber o que é que os motiva a fazerem estas conversas tão importantes para a comédia portuguesa.

Adiantado Mental (AM) – O processo criativo de um livro de conversas envolve, suponho eu, para além de método de escrita, muito trabalho de investigação. Quais é que foram as tuas principais dificuldades ao escrever o Com o Humor Não Se Brinca? Achas que, tendo em conta o aspecto logístico, é mais fácil produzir o podcast semanalmente?

Nelson Nunes (NN) Acima de tudo, escrever um livro exige disciplina para com o teclado. Pelo menos, é assim que funciona para mim: estar todos os dias às sete da manhã a escrever é uma dureza, mas no final compensa. Além disso, é um trabalho solitário e há desalento com muita frequência. Quanto ao trabalho de investigação, também é verdade que é muito necessário, mas normalmente isso não costuma ser difícil para os escritores, porque todos os escritores são (ou devem ser) grandes leitores. Posto isto, e por ser absolutamente viciado em livros, a investigação acaba por revelar-se num tempo gigantesco de lazer. O verdadeiro trabalho está em sistematizar ideias e apresentá-las de um modo simples e intrincado para que o leitor tire delas o maior proveito.

Em relação ao podcast, sim e não. Isto é: é verdade que é muito mais trabalhoso e moroso passar horas e horas a escrever – mas é isso que tenho feito ao longo dos meus dez anos de carreira, por isso acaba por me ser mais fácil, por ser algo natural para mim. Eu penso com base na palavra escrita, por isso os meus métodos são mais naturalmente moldados para a escrita e não para a fala, por exemplo. Além disso, manter uma conversa é muito mais difícil do que parece, e tenho aprendido imenso ao trabalhar com o Alvim, porque sinto sempre que a mente dele é muito mais veloz do que a minha. O que ele ganha em velocidade, eu ganho em sistematização e foco. Por isso é que somos uma dupla tão completa, parece-me.

Agora, em termos logísticos, dá-me muito mais trabalho fazer um podcast do que escrever um livro, por incrível que possa parecer. Não apenas por ter de entrevistar uma pessoa (ou mais) por semana, com o mesmo grau de preparação, e depois ter toda a fase de pós-produção a meu cargo: página de Facebook, iTunes, Mixcloud, escrita de guiões, etc. É duro, mas dá um gozo imenso.

AM – E tu, Alvim, como é que tens criatividade para te desdobrar em tantos podcasts, eventos e programas de rádio? Utilizas alguma fórmula para te manter fresco?

Fernando Alvim (FA) – A forma mais eficaz que encontro para fazer cada uma das múltiplas coisas que faço é justamente não ter só uma. Assim, não desanimo. É por isso que faço tanta coisa ao mesmo tempo: tendo constantemente projectos diferentes, nunca desmotivo.

AM – Quando a receita deste podcast se esgotar – ou seja, quando entrevistarem todos os humoristas/pessoas ligadas à comédia que considerem relevantes a nível nacional – o que pensam fazer a seguir? Continuar o podcast nos mesmos moldes e com os mesmos convidados?

NN/FA – Não acreditamos que o podcast se esgote por dois motivos: primeiro, porque os humoristas têm sempre coisas para dizer, dependendo do zeitgeist e do momento das suas próprias carreiras. Ao mesmo tempo, nós não entrevistamos apenas humoristas, mas também pessoas que trabalham com o humor (Nuno Costa Santos e Rui Zink não são humoristas, mas já foram nossos convidados, apenas para dar alguns exemplos). Por isso, parece-nos que pararemos apenas quando a coisa deixar de nos dar pica ou que já temos uma obra longa e variada.

com o humor não se brinca

Os autores do podcast com Gregório Duvivier, comediante brasileiro

AM – Seria incrível viajarem pelo mundo à procura dos melhores humoristas nos países mais inusitados (tipo Rússia ou Guiné Conacri). Até eu alinhava nisso.

NN/FA – Já nos ocorreu fazer algo desse género, mas felizmente a nossa vida não é só o Com o Humor Não Se Brinca, embora seja um projecto que nos dá uma alegria enorme [o Alvim tem responsabilidades diárias na Antena3 e com os 743 milhões de projectos em que está metido; o Nelson tem livros para escrever e uma agência a quem mostrar trabalho diariamente].

Por isso, uma viagem pelo mundo está, para já, adiada. Embora saibamos que há valores incríveis do humor russo, especialmente na cena de São Petersburgo do sul, ali como quem vai para coiso.

AM – Nelson, satisfaz-me a curiosidade: alguma vez fizeste Stand Up Comedy? Alguma vez tiveste vontade de fazer Stand Up Comedy? O Alvim parece-me que já teve uma pequena incursão nessa área. Parece-me quase inevitável que isso tenha acontecido, na mesma medida em que todos nós já jogámos futebol e não somos – nem queremos ser – futebolistas.

NN – Não, eu nunca fiz Stand Up e tenho demasiado respeito à arte para sequer tentar. A única coisa que faço é mandar umas piadas, de tempos a tempos, no Facebook, mas como mero exercício criativo e de escrita. Não almejo ser humorista, mas almejo usar algum humor na minha escrita. 

AM – Recentemente, o Com O Humor Não Se Brinca conseguiu obter o patrocínio da Sommersby. Têm receio que a marca vos imponha algum limite criativo? Ou pior: acham que agora – uma fase em que teoricamente vão chegar a mais pessoas -, estão mais susceptíveis ao hate de um público generalista e pouco conhecedor do vosso conteúdo? Todos sabemos como é que são as pessoas ofendidas nas redes sociais.

NN/FA – Em relação ao hate do público, é algo que não nos incomoda, pelo menos por agora. De vez em quando há sempre uma ou outra pessoa que mostra desagrado com alguma coisa, mas isso também é o que significa viver em democracia: lidar com opiniões contrárias à nossa. Se alguém não gosta, teremos de avaliar se a crítica é ou não justificada. Se for, tentamos melhorar da próxima. Se não for, não ligamos e seguimos em frente.

Quanto à Somersby, a relação é muito saudável e nunca ninguém nos impôs o que quer que seja. A marca acredita no que temos vindo a fazer ao longo do último ano e o que sentimos é que lhes interessa simplesmente que continuemos com o aparentemente bom trabalho. Ou seja, todos queremos o mesmo.

AM – Já alguém se tentou “fazer ao piso” para conseguir uma entrevista no CHNSB? Não precisam de dizer nomes, basta dizerem que aconteceu. Conheço muitos humoristas que dariam o testículo esquerdo para participarem no podcast, nem que fosse para terem uma ilustração do Pedro Lourenço… Até eu, e nem sou comediante profissional.

NN/FA – Terá acontecido duas ou três vezes, mas nada de muito escabroso. E ainda bem que nos dizes isso, porque já estávamos a pensar que éramos irrelevantes.

AM – Por falar nas ilustrações do Pedro Lourenço, acham que parte do sucesso do podcast vem daí? As ilustrações são tão apelativas que efectivamente nos fazem quer ouvir os convidados, mesmo dos que não gostamos.

NN – Sim, é claro que o Pedro Lourenço é uma aquisição de imenso valor para nós. Aliás, já o tinha sido para os meus livros, e é ainda mais agora que temos uma ilustração semanal. É um extraordinário cartão de visita e é sempre uma surpresa incrível receber no e-mail mais uma obra de arte do Pedro.

com o humor não se brinca

Algumas ilustrações realizadas pelo designer para o podcast

AM – Estando comprometidos em mostrar os bons nomes do meio humorístico português, o vosso programa funciona como uma espécie de seal of approval dos comediantes nacionais. No entanto, suponho que não se riam com todos os nossos humoristas ou, até, que nem gostem de alguns.  A existir eventuais atritos com terceiros, acham que essa inimizade lhes impede a ida ao podcast?

NN/FA – Caramba, se o podcast é um seal of approval, isso é algo que nos passa completamente ao lado. Nunca o criámos com esse intuito, e continuamos a fazê-lo com a vontade de fazer boas entrevistas aos melhores humoristas portugueses. Nada mais do que isso.

Quanto à pergunta em concreto, a resposta mais simples e sincera é: não. Já tivemos humoristas no programa que não nos fazem rir e não foi por isso que deixámos de os convidar. Pelo contrário, queremos sempre ouvir também aqueles de quem não gostamos assim tanto. Normalmente, os convites surgem porque a obra e o público do comediante assim o justificam e legitimam. Não é por mero gosto pessoal. E, até agora, tem corrido sempre muito bem. Achamos que isso se nota bem nas entrevistas que chegam ao público.

AM – De forma muito genérica e sem spoilers, o que é que podemos esperar do espectáculo ao vivo que não existe no podcast?

NN/FA – Ainda não podemos revelar nada, mas há um grupo de Whatsapp com todos os convidados que está a bombar com grandes níveis de comicidade. Por agora, fiquem só com essa informação.

AM – Nelson, recentemente li um post onde dizias que um colega do teu trabalho não te reconhecia no podcast, e isso é incrível pois mostra que o teu empenho nas entrevistas se sobrepõe à tua pessoa. O que vai levar as pessoas a adquirir bilhete? Os convidados, a geekness do podcast ou o carisma do Alvim?

NN – É natural que a malta não me reconheça do podcast, não apenas por ter uma presença mais discreta mas também por ser co-apresentador ao lado de um dos maiores vultos de sempre da história da comunicação em Portugal. E nada contra isso, para dizer a verdade. O meu trabalho é escrever, o podcast acontece como bónus dos livros.

AM – Agora que a entrevista está a quase chegar ao fim, gostava de colocar uma pergunta marcante como a do Daniel Oliveira… Só que é impossível ter uma imagem de marca tão forte. Assim sendo, o que dizem os vossos blocos de notas?

NN – O meu bloco de notas é muito desinteressante, porque qualquer ideia de escrita é rapidamente passada a limpo para uma pasta que tenho lá no computador e sistematizada para qualquer coisa que possa vir a usar no futuro, seja de ficção ou não. Portanto, no telefone, tenho listas de livros por comprar e listas de filmes por ver, essencialmente.

Infelizmente, devido a problemas de agenda, o Alvim não respondeu a esta questão.

com o humor não se brinca

O Com Humor Não Se Brinca vai estar em cena no palco do Cinema S. Jorge no dia 25 de Maio, pelas 21.30, para um espectáculo único e irrepetível. Ainda podem adquirir bilhetes aqui.

Escrito por O Adiantado Mental