À conversa com Cátia Domingues, uma humorista nos campos de refugiados da Grécia

Cátia Domingues é copywriter, autora da página “One Woman Show” no Facebook, apresentadora do Jogo do Tanso no Canal Q e, mais recentemente, voluntária no campo de refugiados de Souda, na ilha de Chios, Grécia. 

Esta jovem deixou o conforto do seu país para ir ajudar desconhecidos que tentam entrar na Europa em busca de uma vida melhor, fruto da guerra que se faz sentir no Médio Oriente, nomeadamente na Síria.

Embora nunca tenha privado com a Cátia pessoalmente, decidi fazer-lhe algumas perguntas. Porquê? Porque ela fez o que muitos de nós (e contra mim falo) não têm coragem para fazer: arregaçar as mangas e ajudar quem efectivamente precisa de ajuda.

Ora leiam o que ela tem para dizer.

MIGUEL MENAIA (MM) – Pelo que percebi, decidiste fazer um interregno na tua carreira de copywriter. Ou seja, preferiste fugir da precariedade do trabalho em Portugal para enfrentar a precariedade da vida humana na Grécia. Ainda não tens saudades dos recibos verdes?

CÁTIA DOMINGUES (CD) –  Tenho saudades de sopa, de arroz de pato, do som das obras em Lisboa. Confesso-te que depois de ver a precariedade na sua forma mais grotesca, não sei como é que vou lidar com essas pequenas explorações modernas e civilizadas da Europa. Aliás, até te digo mais, tenho medo de me tornar naquela pessoa que ninguém quer convidar para os jantares. “Ai vais comer esse chocolate? sabes quantas crianças são exploradas nos campos de cacau?”. Não quero ser essa pessoa. Vou perder toda a minha vida social.

MM – No teu blog descreves que “viver com ansiedade é sentir constantemente que devíamos estar noutro sítio qualquer, a fazer outra coisa qualquer”. Isso alterou-se desde que estás aí? Como é que estás a lidar com a tua ansiedade?

CD – Queres saber, honestamente? Não a sinto. O que é incrível dado que estou a fazer parte de situações limites, com crianças doentes, com frio, mulheres grávidas a viver na lama, pessoas em depressão profunda, tentativas de suicídio ao virar da tenda. Não sinto metade da ansiedade que sinto na minha vida diária. Não sei explicar isto. Talvez porque sinta profundamente que estou onde devo estar, neste momento.

“O riso aqui é sobrevivência”

MM – Quem te acompanha nas redes sociais ou no Canal Q sabe que tens um sentido de humor bastante incisivo e sarcástico. É difícil fazer rir alguém num campo de refugiados? Como é que se interpreta um riso num ambiente tão pesado?

CD – Não, não. É muito fácil. Uma grande parte das crianças conseguiu manter aquela inocência e está predisposta, outra ainda está muito fechada, muito traumatizada. É mais difícil, mas se não desistires delas, elas chegam lá. Os adultos também estão predispostos, e entre eles é comum veres uma conversa mais animada, para espantar o desespero e esconder as cicatrizes.

Eu gozo com isto constantemente, tipo “Pelo menos a pequenada experimenta campismo selvagem, a mim os meus pais nem ao campismo da Caparica me levaram”, sei lá é uma forma de abordar esta merda que nada tem de bom e tens malta aqui que percebe o teu humor e que além de se rir, alinha – refugiados e voluntários – e rir-se da desgraça é capaz de ser uma das melhores formas de descomprimir. Sinto a gargalhada como um raio de sol no meio deste tempo cheio de chuva. Rir é sobrevivência, e chorar já o fazem e muito.

MM – Agora faço-te a questão ao contrário: já alguma vez te fizeram rir desde que aí estás?

CD – Entre os voluntários que conheci, criei uma ligação muito forte com três. Ingleses, com aquele humor britânico tão bom. Clicámos no humor e nunca mais nos separamos, por isso mesmo. O humor ajuda-nos a não desistir, a não enlouquecer, a sentirmo-nos quentes neste gelo. A malta dos campos também gosta sempre de nos contar histórias, fazer comentários engraçados, sei lá..o riso é universal. Vês malta da europa, com árabes, norte de África… Tudo em comunhão para o mesmo. O riso pode mudar o mundo. Eu acredito nisto.

MM – O riso atenua a dor?

CD – Mais que isso. O riso aqui é sobrevivência, digo-te assim.

MM – Achas que o Jogo do Tanso te preparou para as críticas que te têm feito nas caixas de comentários dos órgãos de comunicação social? 

CD – Oh, claro que sim. Sou completamente imune. Recuso-me a dar poder a pessoas com perfis anónimos ou que têm nomes como “CruzadaPelaNação” com uma de um cartoon como foto de perfil. Dar importância, na minha vida, a pessoas que nunca contribuíram em nada.. .é só estúpido, certo? Ninguém deve fazer isso. E aquilo dos comentários não foi pessoal, de todo. Raramente é. Tipo a sério que estás a criticar alguém que está a contribuir de alguma maneira para a solução de um problema? Acho que só a premissa aniquila a credibilidade desta gente. Não são propriamente uma referência no que diz respeito a direitos humanos, não é? E se há coisa que aprendi é que pode ser uma notícia sobre campos de refugiados ou sobre quem saiu no Domingo na Casa dos Segredos, que as pessoas aproveitam sempre para destilar ódio.

Há pessoas profundamente ignorantes, que nunca saíram para ajudar o vizinho e com demasiado tempo livre. Vêem um título de uma fake news no Facebook ou vão à tasca e ouvem uma laracha qualquer e acham imediatamente que sabem tudo. Sabem lá eles onde é a Síria ou que é Souda ou o que se passa fora da bolha.

A cena é estares seguro de ti e do que estás a fazer e continuares a dar o exemplo do que queres ver, e é isso. E eu trocava na boa estas pessoas por famílias que estão retidas aqui neste lodo. Aliás, é a minha solução para a ONU.

MM – A desinformação e o medo, como bem sabes, levam ao ódio. Existe uma crise de valores na nossa sociedade porque as pessoas não estão informadas, ou simplesmente porque as pessoas são más?

CD – Chama-me ingénua, mas eu não acredito que existam pessoas más por essência. Acredito que se tornam más. Como os pitbulls. Se tens uma crise de valores? Mais do que a económica. E isto sim, tem de ser combatido localmente, em cada país, em cada cidade, na nossa família. Temos de fazer parte desta mudança, urgentemente.

MM – És, por exemplo, a favor do uso do burkini e da burka dentro da Europa? É que, por um lado, as mulheres devem vestir-se como querem, mas por outro, estão subjugadas à cultura machista do Médio Oriente ao usarem este tipo de vestuário.

CD – Odeio o termo burkini, porque o fato de banho não é uma burka. Mas sim, sou contra o uso de burka, mas sou a favor do hijab. Quem sou eu para dizer a uma Malala que ela é uma subjugada e não deve usar aquilo que ela escolhe usar pelas razões que entende? A Europa, antes de se armar em moderna e civilizada e querer legislar sem preparação nenhuma, precisa antes de programas bem feitos de inclusão a estas pessoas, com informação, educação, promoção da liberdade de escolha com homens e mulheres.

MM – Como é que a Europa – e quando digo Europa, refiro-me aos Governos e à União Europeia – pode efectivamente resolver este problema? Consigo entender que percebes sobre política, e isso é claro nas tuas abordagens (humorísticas e não só). Tens soluções?

CD – Não estudei para resolver os conflitos do Médio Oriente nem me pagam para resolver esta crise. Mas pagam a pessoas que estudaram para isto. Não sei se me faço entender. Há dinheiro para resolver isto, tem é de haver vontade. Porque isto é a merda de um negócio. Estas pessoas estarem aqui, dá dinheiro a pessoas. Então interessa manter gente em cativeiro, em esperar de anos… sem poderem fazer nada, nem ter nada. Criar fantasmas, delinquentes que dia após dia só agravam o problema e não são em nenhuma forma parte da solução.

Fechar os campos que não reúnem condições básicas (como o de Souda), tornar os processos burocráticos mais rápidos, criar programas de inclusão que funcionem nos países receptores.

Ah, e trocar comentadores de Facebook por famílias de refugiados. Esta é a melhor ideia que tive em anos.

“Tu não vais salvar ninguém (…)  O que podes fazer é tornar o dia menos merdoso, partilhando, ajudando”

MM – E a nível pessoal, se alguém quiser ajudar os refugiados mas não quiser levantar o rabo do sofá, o que pode fazer?

CD – Pode informar-se e fazer, assinar petições (quem sabe funcionem). Fazer donativos de roupa, livros, etc… Às inúmeras ONGs que operam na Grécia, doar dinheiro (se tiverem a possibilidade) a ONGS que se dediquem a legal advice e suporte médico. E quando virem um otário a dizer merda nas internets, gozar com eles (tentar esclarecer, revela-se sempre um tempo desperdiçado).

MM – Quando a tua experiência em campo terminar, o que pensas fazer com as histórias que absorveste? Há muita gente a seguir-te, és quase considerada uma influencer. Achas que a partilha deste voluntariado pode mudar mentalidades mais fechadas?

CD – “(…) Quase considerada” OUTRA VEZ, ESTRAGAS-ME COM MIMOS. Espero continuar a falar disto, sempre que conseguir e me derem oportunidade, da forma como costumo fazer. Porque isto não é “outra realidade”, é a nossa realidade. E é vergonhoso o desprezo que os media dão a isto.

Espero que sim, caso contrário fecho o estaminé.

MM – De acordo com a bio do teu Instagram, dizes que um dia vais mudar o mundo. Sentes que já o estás a fazer?

CD – Um niquinho, sim. Mas não sou daquelas pessoas que acha que vir ajudar para um sítio destes, é salvar pessoas. É ridículo pensar assim, aliás só revela que estás mais aqui por ti, na realidade.

Tu não vais salvar ninguém, porque tu pegas no avião e no teu passaporte e vens-te embora. Esta gente continua aqui nesta selva e não há nada que possas fazer para deixarem de estar. O que podes fazer é tornar o dia menos merdoso, partilhando, ajudando.

Acredito que ao partilhar o que se passa aqui possa converter algumas pessoas a pensarem diferente e quem sabe a criar alguma acção sobre isto.

MM – Obrigado, Cátia.

CDAfwan.

Sigam-a no Facebook, e a mim também, já agora. Entretanto, deliciem-se com esta pérola que a Cátia me mandou hoje de manhã.

Bom fim-de-semana, pessoal. Espero que sobrevivam à tomada de posse do Trump.

Written by O Adiantado Mental