Que merda que nós somos – todos!

Digo-vos já: não sou o maior fã de teatro (muito menos de musicais). Apesar de achar que é um produto culturalmente apelativo, é raro ir a este tipo de espetáculo. Chamem-lhe inércia, desinteresse ou só estupidez – o certo é que eu e o teatro temos menos afinidade do que o William Carvalho e a Agnes da Casa dos Segredos.

Porém, devido ao hype em redor do Avenida Q, lá decidi abrir os cordões à bolsa no passado dia 6 de Outubro. Assim sendo, dirigi-me ao Auditório dos Oceanos, no Casino de Lisboa, para ver a adaptação portuguesa de uma peça que esteve consecutivamente mais de 6 anos em cena na Brodway. E foi incrível, incrível. Sobretudo pelo facto de ter ficado na 2ª fila.

4 boas razões para irem ver o Avenida Q

A história do espetáculo acompanha Luís, um recém-licenciado que chega a uma nova cidade e que se começa a dar com a vizinhança. Entre os vizinhos estão Paula Porca (interpretada pela Inês Aires Pereira), Félix (um gay que ainda não saiu do armário, interpretado por Manuel Moreira), Marta Monstro (uma educadora de infância, interpretada por Ana Cloe) e Trekkie (o tarado sexual viciado em pornografia, interpretado por Rodrigo Saraiva).

“Juntos, tentam encontrar um propósito na vida e falam sobre os temas existenciais que nos afectam a todos”, acrescenta a produtora Força de Produção.

Aqui ficam 4 boas razões para o irem ver ao teatro:

1. Não é para crianças – mesmo que pareça

Sim, são fantoches a interagir com personagens humanas. Não, não é – de todo – uma peça para crianças. Todos os que vão ver o Avenida Q sabem disso (a menos que sejam apanhados de surpresa), e é esta subversão da norma que torna o espetáculo tão cativante.

“Vem traumatizar a criança que há em ti” é, inclusive, o chavão que podemos ver em alguns cartazes espalhados por Lisboa. Portanto, considerem-se avisados: esta é mesmo a Rua Sésamo para adultos.

2. Está bastante bem escrito

O Rui Melo e o Henrique Dias – o encenador e o argumentista do projecto, respectivamente – fizeram uma adaptação sublime disto. A nível de guião, a história está bem adaptada à realidade portuguesa, com referências que todos nós apanhamos: veja-se o caso da personagem Saúl (interpretado por Rui Maria Pêgo), por exemplo, que na versão original era um artista, de seu nome Gary Coleman, que ficou rico em criança e que foi posteriormente roubado pelos pais (ou seja, totalmente semelhante ao jovem do hit Bacalhau Quer Alho).

Para além disso, o espetáculo tem efectivamente piada! Não é hilariante do inicio ao fim mas cumpre bem o propósito de fazer rir, algo que também não me surpreende, ora não fosse o Avenida Q adaptado por uma das mentes por detrás da série de sketches Ferro Activo.

3. A história tem uma moral

A homossexualidade reprimida, a constante busca do sonho, o vício em pornografia, o racismo inadvertido ou a dificuldade que é ser um jovem adulto numa grande cidade e não ter emprego. Todos estes temas são abordados na peça e, não querendo ser spoiler, acabam todos por nos fazer pensar. E quem diz o contrário, quem diz que o espetáculo é superficial, não atingiu o cerne da questão.

No fundo, o Avenida Q mostra-nos duas grandes verdades: a primeira é que somos todos uma merda (será impossível sair de lá sem trautear a canção “Que merda que eu sou!” Turururu), uma vez que todos temos idiossincrasias e problemas transversais ao ser humano; a segunda é que tudo isto é para já (menos a crise e o Preço Certo, dizem). A vida é momentânea e, por isso mesmo, os problemas também são. Não vale a pena dramatizar muito nem levar isto muito a sério.

4. O elenco é bastante talentoso 

Como assim, o filho da Júlia Pinheiro e o Tojó dos Morangos Com Açúcar sabem cantar?”, pensei eu, a espaços, nestes 100 minutos de espetáculo. E a verdade é que tanto estes dois como o resto do elenco sabe cantar e representar. Fica aqui o meu props, também, para todos os músicos envolvidos na cena – sem eles, não haveria musical, pelo que dão uma roupagem diferente a este belo embrulho.

Este espetáculo está em cena em Lisboa até Janeiro de 2018; depois disso, rumará até ao Teatro Sá da Bandeira, no Porto, onde ficará até Fevereiro. Os bilhetes não são propriamente baratos, mas valem cada cêntimo!

São 100 minutos – talvez pudessem ser só 80, vá – muito bem passados.

Written by O Adiantado Mental