O romance dos tempos modernos

Numa era que a nossa auto estima é regida pela quantidade de likes que temos numa fotografia publicada no Instagram, ou em que um post de Facebook dita o nosso bom ou mau gosto aos olhos dos outros sobre determinado tema, ter um perfil no Tinder parece-me algo perfeitamente banal.

Sim, é uma merda que não nos deixa aproximar das pessoas de uma forma humana. A tecnologia, e não só nas redes sociais, limitou-nos socialmente, ao mesmo tempo que nos deu acesso a mais informação. É um paradoxo tramado.

Mas quem nunca conheceu pessoas através da internet? Vão dizer-me que vocês, que provavelmente são do tempo do mIRC, do hi5 ou do MSN, nunca bateram coro a uma miúda (ou a um gajo) através de uma janela de chat, na adolescência ou na idade adulta?

Ter um perfil no Tinder é como fumar a ganza de um amigo: todos nós um dia acabamos por dar um primeiro bafo sem saber muito bem como vai ser a moca. Alguns largam logo aquilo ao primeiro charro porque não curtem da cena, outros continuam mas não ficam agarrados, porque aquilo também não mata por overdose.

Nunca vos disse, mas há dois anos (em 2015) namorei com uma rapariga que conheci no Tinder. E quando digo namorei, namorei mesmo – com tudo o que existe numa relação estável e séria. Conheci os pais dela, ela conheceu os meus, viajámos muito, fomos ao cinema, jantámos, pinámos (não necessariamente por esta ordem), rimos e chorámos juntos. Durou apenas 7 meses, porque a vida é mesmo assim e todas as relações têm um prazo de validade, mas foi interessante.

Agora, se algum dos meus amigos (ou dos amigos dela – ou até mesmo os pais!) estiver a ler isto: não, eu não a conheci na Ribeira das Naus enquanto estava a ler um livro de Ken Follett e ela também; conheci-a numa app de dating porque ambos fizemos swipe right. Entretanto esta última frase pareceu bué trendy, mas usar demasiados estrangeirismos é lame.

A ideia romântica de conhecer alguém num sítio bonito, e de ambos estarmos a ler um livro do mesmo autor e, do nada, fazermos contacto visual enquanto o mundo pára de girar, não passa disso mesmo – de uma ideia romântica. Que, por mais que aconteça, não espelha totalmente a vida real quotidiana.

Por acaso, os nossos gostos eram semelhantes. As nossas referências culturais coincidiam, e o sentido de humor dela fazia-me rir, e vice-versa. Existiu química no primeiro encontro, da mesma maneira que existiu atração física. Tudo isso levou a uma relação.

O problema de dizermos a alguém: “Puto, no outro dia criei um Tinder, conheci uma chavala muito fixe e fomos sair. Não, não estamos só a comer, estamos mesmo a namorar” é que estamos a admitir a fragilidade que é conhecer alguém através de um meio muito pouco físico e ortodoxo que é a internet. E isso é fodido, porque ninguém quer ser esse tipo de gajo.

Mas hey, estamos no século XXI! As donzelas já não são cortejadas por papiro real.

Apesar de não ser a melhor cena de sempre conhecer pessoas online, não podemos assobiar para o lado e dizer que as redes sociais não têm importância nenhuma no nosso mundo. É claro que têm. Por isso mesmo, quer conheçam alguém num café enquanto comem uma torrada e bebem um carioca de limão, quer se apaixonem pelo amor da vossa vida no metro para a Reboleira, o importante é estarem de consciência tranquila com aquilo que estão a fazer. E cagarem naquilo que a sociedade vos impõe como “a norma”.

E é com esta frase de Gustavo Santos do Barreiro que me despeço.

Muitos matches para todos. Swipe right para todas as meninas giras, mas cuidado com as de Leste, que já se sabe que essas têm bichedo.

Written by O Adiantado Mental